Áreas do palco: direita, esquerda e marcação na dança

Publicado em

Diga "vá para a direita" sem dizer de que ponto de vista e metade do grupo sai para o lado errado: quem pensa como dançarino vai para um lado, quem pensa como plateia vai para o outro. Um vocabulário comum evita esse desencontro em todo ensaio. Este guia explica a convenção brasileira de direita e esquerda do palco, conferida em glossários de teatro do país, como ela se cruza com o inglês, o francês e o japonês, os nomes das áreas do palco, o que os manuais dizem da força de cada área, as marcações no chão e como passar tudo isso para o grupo, do estúdio ao palco de verdade.

O ponto de vista: da plateia ou do palco

Nos glossários brasileiros, direita e esquerda se dizem do ponto de vista de quem está em cena, de frente para a plateia. O glossário do Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude (CBTIJ) define a direita como a parte do palco que fica do lado direito do ator, ou seja, à esquerda do espectador; a esquerda fica do lado esquerdo do ator e à direita de quem assiste. Na prática, se você está no palco olhando para o público, a sua direita é a direita do palco. Quem está sentado na plateia precisa inverter, e é aí que nasce a confusão.

Para a profundidade, a origem é conhecida. Segundo a apostila de iluminação cênica de Rafael Quirino, publicada no Mapa Cultural de Pernambuco, o piso dos antigos palcos italianos era inclinado, mais alto no fundo do que na frente; os palcos de hoje são planos, mas as áreas continuam se chamando altas (fundo) e baixas (frente). Para os lados, a tradutora Bárbara Heliodora avisa, em nota à sua tradução de A Ratoeira, que nos textos ingleses direita e esquerda são sempre as do ator, não as da plateia, e usa as abreviações comuns de teatro D, E, C, B e A. Os glossários consultados não trazem um macete brasileiro; o lembrete mais simples é a própria regra: a direita do palco é a sua direita quando você encara o público.

O glossário do CBTIJ dá os equivalentes em outras línguas. A direita do palco corresponde ao stage right inglês e ao côté jardin francês; a esquerda, ao stage left e ao côté cour. Cuidado com o francês: cour e jardin são definidos a partir da plateia, então cour é a direita de quem assiste, isto é, a nossa esquerda. No japonês, segundo a Wikipédia japonesa, kamite (上手) é o lado direito visto da plateia, o mesmo que stage left. E há a armadilha do estúdio: o espelho devolve o seu reflexo, não a visão do público, e quem assiste de frente vê a formação invertida em relação ao que aparece no espelho.

As áreas do palco

Na profundidade, o vocabulário brasileiro fala em baixa e alta. Segundo o glossário da Escola de Teatro Juliana Leite, de Limeira (SP), baixa é a parte do palco mais próxima da boca de cena, e alta, a mais próxima do fundo. A boca de cena é a abertura frontal que emoldura a cena; à frente dela, o proscênio avança em direção à plateia, e a ribalta marca o seu limite, como explica o glossário da São Paulo Companhia de Dança (SPCD). No fundo, a rotunda, um pano geralmente escuro, fecha a profundidade do espaço; o ciclorama, uma tela clara que recebe a luz, também fica ao fundo.

Cruzando três faixas de profundidade com três de largura, chega-se a nove áreas. A Escola de Teatro Juliana Leite as chama de esquerda alta, centro alto, direita alta, esquerda média, centro, direita média, esquerda baixa, centro baixo e direita baixa; a apostila de Rafael Quirino diz central alta, central média e central baixa para a coluna do meio. O CBTIJ descreve uma divisão em seis planos, sem a faixa do meio, e trata o proscênio como plano neutro. Nas rubricas de A Ratoeira, Bárbara Heliodora combina as letras: DA para direita alta, EB para esquerda baixa, DB para direita baixa. Direita e esquerda, aqui, continuam sendo as de quem está em cena.

Dos lados e atrás ficam as coxias, também chamadas de bastidores: segundo o glossário da SPCD, é a parte da caixa do teatro, nas laterais e no fundo, por onde atores e bailarinos passam nas entradas e saídas de cena, e onde os bailarinos esperam para entrar. As pernas, panos que descem do urdimento até o chão, delimitam a lateral do palco; as bambolinas, faixas horizontais no alto, escondem as varas e os refletores. Pernas e bambolinas formam os rompimentos, que a Escola Juliana Leite numera da boca de cena para o fundo, do mais próximo ao mais distante do público. Usar essa numeração ajuda a combinar por onde cada dançarino entra e sai.

A força de cada área do palco

A apostila de Rafael Quirino resume o que alguns teóricos de teatro chamam de áreas de força: as cenas na esquerda alta teriam o menor impacto expressivo, as feitas na frente, nas áreas baixas, o maior, e o centro teria mais força que as laterais. O livro Função Estética da Luz, de Roberto Gill Camargo, conta que Doris Humphrey levou para a dança ideias de Gordon Craig: o centro do palco concentra as forças, descer ao proscênio dá um tom intimista e sair de cena por uma diagonal pode simbolizar exílio ou morte. Camargo acrescenta que os cantos e as laterais costumam ser fracos, porque são o limite de um espaço que continua escondido atrás dos bastidores.

Tudo isso é convenção de composição, não lei. O próprio Quirino avisa que esses conceitos nunca podem ser regra fixa e devem passar pela intuição e pelo bom senso de quem cria. A SPCD lembra que a hierarquia do palco italiano, com o centro como lugar privilegiado, vem do tempo em que o espectador principal era o rei, e que Merce Cunningham rompeu com essa frontalidade: na visão dele, qualquer ponto ocupado por um bailarino pode ser o principal. E o lugar de quem assiste muda tudo: numa poltrona lateral, a coxia do seu próprio lado e as áreas altas desse lado ficam mais difíceis de ver, enquanto o lado oposto se abre.

Para um grupo, isso vira algumas decisões práticas. Quem precisa ser visto num momento-chave, como um solo, um uníssono ou o final, pode ir para o centro ou descer para as áreas baixas; quem acompanha pode ocupar as laterais e as áreas altas sem disputar o foco. Uma saída em diagonal carrega sentido, segundo a leitura de Humphrey, então reserve-a para quando a coreografia pedir esse peso. Nas formações com muita gente, escalonar as filas evita que um dançarino fique escondido atrás de outro. E vale conferir cada formação a partir de mais de uma poltrona, não só do centro da plateia.

Números e marcações no chão

Nas fontes brasileiras consultadas não aparece uma numeração codificada de posições no chão do palco. O que as escolas de balé usam é uma numeração de direções. Segundo o blog Mundo Bailarinístico, o diagrama mais comum é o de Agrippina Vaganova: o ponto 1 é a frente (o espelho, na sala, ou o público, no palco), e a contagem segue em sentido horário até 8, com números ímpares para frente, lados e fundo (o 5 é o fundo) e pares para as diagonais. Os métodos Cecchetti e da Royal Academy of Dance numeram de outro jeito, então confirme qual sistema o grupo usa. Antigamente o próprio piso ajudava: Quirino conta que as quarteladas, chapas de madeira de 2 por 1 metro, facilitavam as marcações.

No teatro, marcação é o conjunto de movimentos que a direção indica a quem está em cena, segundo o glossário da Escola Juliana Leite, que chama de implantação de cena o desenho feito no chão do palco, geralmente com fita ou giz, para ensaiar antes de o cenário existir. Para dançarinos, a ferramenta mais comum é a fita. O catálogo da Rosco do Brasil mostra as opções: fita crepe colorida, em que se pode escrever, fitas fluorescentes de tecido indicadas para marcação de palco e uma fita fosforescente, que absorve luz e brilha no escuro, para as marcas que precisam aparecer no blecaute. Uma cor por dançarino, ou o número escrito na fita, deixa cada marca fácil de achar.

Poucas marcas bem escolhidas valem mais que um chão coberto de fita: o centro, a linha da frente, os quartos do palco e as posições que mudam muito costumam bastar. Em dança, o piso costuma ser coberto por linóleo, o tapete de dança; o glossário da SPCD explica que ele não escorrega, mas deixa deslizar quando a coreografia pede. Antes de colar qualquer marca, pergunte ao técnico do teatro que fita é aceita sobre o tapete. A Rosco indica a sua fita de tecido como uma que não deixa resíduo de cola. Ao trocar de coreografia, retire as marcas antigas e mude de cor, para que ninguém confunda duas peças.

Como passar o mapa do palco para o grupo

A regra de ouro é dizer o ponto de vista a cada instrução e manter um único sistema no grupo. "Direita do palco" basta se todos sabem que é a direita de quem dança; na dúvida, acrescente "a sua direita" ou "a direita da plateia". Um guia sobre mapa de palco do site Palcos do Brasil lembra que esquerda e direita podem ser entendidas do ponto de vista do público ou do artista, e recomenda deixar a orientação clara no desenho. Combine também as abreviações (DA, CB, EB) e use sempre as mesmas palavras para a frente e o fundo.

No estúdio, o espelho faz o papel do público: no diagrama de Vaganova, como descreve o Mundo Bailarinístico, o ponto 1 é o espelho ou a plateia. De frente para o espelho, a direita de cada dançarino já é a direita do palco, o que facilita. A armadilha está no reflexo: ele mostra a formação ao contrário do que a plateia vai ver. Quem dá aula de frente para a turma, de costas para o espelho, também pode demonstrar espelhado, e vale avisar. Para levar o palco para a sala, marque no chão do estúdio o centro e as bordas do palco real, com a largura e a profundidade dele, e combine o que muda se a sala for menor.

Dê a cada dançarino o seu lugar em cada formação: a área, a marca de referência e quem fica ao lado. Depois, no palco de verdade, refaça a marcação, porque o tempo costuma ser curto. No II Festival Fundação das Artes de Dança Estudantil, em São Caetano do Sul, por exemplo, cada escola tem direito a uma marcação técnica e uma passagem completa no palco, com no máximo 15 minutos. Chegue com tudo decidido, use esse tempo para ajustar as distâncias às medidas reais e peça para alguém conferir da plateia, de mais de um lugar, se ninguém some atrás de outro dançarino.

Preparar o seu mapa de palco com o Stancz

O Stancz é um aplicativo de coreografia: você posiciona os dançarinos num palco em escala, encadeia formações e vê as transições se animarem no ritmo da música, em visão 2D de cima, em 3D e do ponto de vista da plateia. Ele funciona no navegador de um computador (PC ou Mac), sem instalação, e em aplicativos para iPhone, iPad e Android, com a mesma conta em todos. O plano gratuito permite até 3 coreografias, com 4 formações por coreografia, e existe uma assinatura paga para ir além. O Stancz traz 19 presets, formas prontas que se adaptam ao número de dançarinos, e aceita até 500 dançarinos por coreografia.

Na Visão 2D, o palco é visto de cima, com largura e profundidade em metros (10 × 6 m por padrão). Réguas em cima e à esquerda marcam cada metro com um número e cada 50 cm com um traço, a partir do 0 no canto esquerdo; duas linhas de centro pontilhadas, sempre visíveis, se cruzam numa pequena cruz. FRENTE DO PALCO fica sob a borda de baixo, do lado do público, e FUNDO acima da borda de cima. A Grade pode ser exibida ou escondida, Encaixar prende os dançarinos nela e os números deles podem aparecer. Não há rótulo de direita nem de esquerda: com o público embaixo, o lado direito do desenho é a direita de quem assiste, isto é, a esquerda do palco na convenção brasileira, o stage left, o côté cour e o kamite.

Na Visão do público, você abre Escolher seu lugar e pega uma poltrona pronta (Plateia central, Primeira fila, Primeira fila, lado direito, Lado esquerdo, Lado direito, Jurados, Balcão, Câmera) ou toca uma poltrona no Mapa da plateia, que indica esquerda e direita. Esses lados são os de quem está sentado: o Lado direito fica diante da esquerda do palco. A câmera vai até lá, enquadra o grupo e diz quem fica escondido e atrás de quem, ou avisa: Todo mundo aparece deste lugar. A Visão 3D completa o quadro. Compartilhar a coreografia só para leitura é gratuito: os dançarinos assistem, e Me destacar põe em evidência o dançarino de cada um. Limites: não há exportação em PDF nem edição por várias pessoas ao mesmo tempo.

Perguntas frequentes

A direita do palco é a direita de quem dança ou de quem assiste?
De quem dança, de frente para a plateia. O glossário do CBTIJ define a direita como o lado direito do ator, que é o lado esquerdo do espectador, e a esquerda como o lado esquerdo do ator, à direita de quem assiste. Como nem todo mundo segue essa regra, diga o ponto de vista sempre que houver dúvida.
Quais são as nove áreas do palco?
Esquerda alta, centro alto, direita alta, esquerda média, centro, direita média, esquerda baixa, centro baixo e direita baixa, segundo o glossário da Escola de Teatro Juliana Leite. Alta é o lado do fundo, baixa o lado da boca de cena. Nas rubricas, abrevia-se com as iniciais: DA, EB, DB e assim por diante.
Como ficam stage right e stage left em português?
Stage right é a direita do palco e stage left é a esquerda, porque o inglês também conta do ponto de vista do ator, como lembra Bárbara Heliodora. No francês muda: côté cour é a nossa esquerda do palco (a direita de quem assiste) e côté jardin é a direita, segundo o glossário do CBTIJ.
Que fita usar para marcar o palco de dança?
Para ensaios, fita crepe, de preferência colorida e com o nome ou número de cada dançarino escrito nela. Para marcas que precisam aparecer no escuro, existe fita fosforescente, como a Glow Tape do catálogo da Rosco do Brasil. Sobre linóleo, combine antes com o técnico do teatro e retire as marcas ao final.
Existe aplicativo gratuito para fazer mapa de palco e posicionar dançarinos?
O Stancz é um aplicativo de coreografia que posiciona os dançarinos num palco em escala, com visão 2D, 3D e do público. Funciona no navegador de PC ou Mac e em aplicativos para iPhone, iPad e Android. O plano gratuito vai até 3 coreografias com 4 formações cada, e uma assinatura paga libera mais.

Fontes

Este guia se baseia nas referências a seguir, consultadas durante a redação.

  1. 1.cbtij.org.br
  2. 2.cbtij.org.br
  3. 3.cbtij.org.br
  4. 4.teatrolimeira.com.br
  5. 5.mapacultural.pe.gov.br
  6. 6.portaldosatores.com
  7. 7.ja.wikipedia.org
  8. 8.spcd.com.br
  9. 9.dokumen.pub
  10. 10.mundobailarinistico.com.br
  11. 11.roscobrasil.com.br
  12. 12.saocaetanodosul.sp.gov.br
  13. 13.palcosdobrasil.com.br

Leia também

Direita e esquerda do palco vistas por quem dança, as 9 áreas (DA, CB, EB…), a força de cada uma e as marcações com fita para ensaiar em grupo.

Começar